Archive for the 'família' Category

História aberta

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História aberta

Era uma vez uma casa

Muito grande

Com um tecto sem fim

Nem sempre azul

Uma casa enorme

Onde habita uma grande família

Uma família tão grande

Que os seus irmãos julgam que não se conhecem

E todos se conhecem

E todos se devem amar

Nesta casa há guerra

E eu choro a um canto desta casa

Inútil choro

É terrível ouvir este próprio chorar

Matilde Rosa Araújo

Mistérios

Lisboa, Livros Horizonte, 1988

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Quando eu nasci

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Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,

nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais…

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos da minha Mãe…

Sebastião da Gama

Serra-Mãe: poemas.

Lisboa, Ed. Ática, 1996

A propósito de mãe e poesia…

A propósito de mãe e poesia…

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Maria Alberta Menéres, a propósito do seu livro O poeta faz-se aos 10 anos, relata uma situação de aula em que a mãe era o tema sobre o qual os alunos tinham de escrever. Observa os resultados dessa aula.

Um tema difícil: a mãe

Há tanta coisa a dizer e parece que não se consegue dizer nada. A emoção sobrepõe-se ao pensamento. É sempre assim quando se propõe que escrevam sobre a mãe. Dolorosa e concentrada se pressente então a escrita. Mas reparo: sempre de uma beleza e de um insólito, por vezes insuspeitados.

Motivação:

Lembro-lhes que a mãe pode estar em tudo o que se vê, se a quiserem ver. Como a poesia: na parede branca, no mar, nas escamas do peixe a brilhar ao sol, no sol, no ar, nas pedras, até nas palavras que a caneta desenha no papel, no giz branco que escreve no quadro a palavra mãe. A mãe ou a imagem da mãe. Tal como acontece com a poesia, do olhar para as coisas de todos os dias podemos extrair um sentido que é presença ou saudade.

Escreveu o Raul:

Os olhos da minha mãe são como as escamas
Os olhos da minha mãe são como as escamas
reluzentes dos peixes do mar.
O mar é o seu corpo
e o seu coração é o Sol.
Os seus cabelos são como as penas de um galo,
a sua boca é suave como o vento
as suas mãos são finas como areia.
Os seus dentes são de marfim.
O meu amor por ela é tão grande
que nem posso dizer.

O maroto do Salgueiro, que até nem é feio, saiu-se com este pequeno poema:

Mãe, como tu és bela.
Já me disseram
Que sou parecido contigo.
Este dito me consola,
porque me acho feio.
Mas se sou parecido contigo,
como posso ser feio?
Mãe, mãe, eu sou bonito
porque tu és bela.

A Prenda que Eu Queria

Se tu me entendesses,
se tu me entendesses,
meu pai, meu professor, meu amigo
Se tu me entendesses,
eu podia falar contigo
Não na tua linguagem, mas na minha
Podia até brincar contigo,
contar-te histórias de bichos de conta,
de borboletas azuis e amarelas,
de estrelas e pássaros
Se tu me entendesses,
se tu pudesses regressar até mim,
subindo ou descendo
Eu podia abraçar-te, sem mais nada,
só abraçar-te!
Se tu me entendesses, eu não queria nada
do que tu me queres dar
Se tu me entendesses, eu ficava tão contente
tão contente, que o meu riso havia
de alegrar o teu mundo triste
Se tu me entendesses, eu… eu sei lá!
Se tu me entendesses,
eu fazia-te festas,
andava contigo de mão dada,
cantávamos juntos
a canção da vida,
corríamos pela erva verde
Se tu me entendesses, ah! se tu me entendesses,
não me ralhavas, não me davas ordens,
não me batias, não me magoavas
Se tu me entendesses, neste dia,
que dizes que é meu,
Se tu realmente me entendesses

NÃO QUERIAS FAZER DE MIM
UM HOMEM COMO TU

E eu dava-te um beijo

Um menino do mundo

Júlio Roberto
A prenda que eu queria
Lisboa, ITAU, 1978

Compreendes, certamente, as razões que levam o menino a estar triste. Queres falar de algumas delas?

Escrevi um livro

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A menina do pinhal

Era uma vez uma mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo…

Era uma vez uma velha
que bem contava uma história:
uma história muito linda
que ela tinha de memória.

Esta mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, era avó de muitos netos. Netos que, à volta do mundo, a ouviam contar.

E a avó contava, contava, devagarinho, assim a modos cansada.

Cabelos brancos de lua,
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai, netinhos, se eu me canso!

E os netos do mundo ouviam… ai!, mas o que ouviam os meninos do mundo? Uma história misteriosa…

Conta a história toda, toda,
Sem tirar sequer um ponto!
Pediam os meninos do mundo
Que a avó contasse o conto.

A avó sorria. Estremecia devagarinho, como se fosse uma árvore que o vento abanasse. E os netos do mundo escutavam.

É o vento da memória
Que me faz estremecer:
Meu coração lembra a história…
Escutem, que o ouvem bater.

E os netos, pelo mundo, ficavam muito calados a escutar a história do coração da avó.

Ai! Se a memória não falha!
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera.

E os meninos do mundo escutavam. E repetiam:

Era uma história, era, era…
Era uma história passada
Era uma história lembrada
No tempo da Primavera.

E a avó sorria contente, o coração a bater de alegria. E continuava…

A história de uma menina
Que vivia num pinhal:
Seus brinquedos eram pinhas
Em cestinhas de cristal.

Em cestinhas de cristal.
Cristal da neve dos montes.
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.

Nas agulhas dos pinheiros
Cantar o vento ela ouvia
E com o vento cantava
O canto da cotovia.

E o cuco com seu cu-cu,
O gaio com seu piu-piu
Eram caixinha de música
Como nunca ninguém viu.

E os netinhos do mundo ouviam, ouviam. E a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, continuava a contar…

Cabelos brancos de lua.
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai! Meninos, se eu me canso!

― Continua, Avó, continua! ― pediam os meninos.

Mas deixem que eu vou contar,
Se me não falha a memória:
Também tinha pombas brancas
A menina desta história.

E rolas mansas, cinzentas,
Com o seu canto a rolar:
Tanta ave no pinhal,
Tanta asa para voar!

E pelo chão do pinhal,
Também tanta vida havia:
Formiguinhas de silêncio
Que cantavam a alegria.

E tantos outros bichinhos
De conta, conta a contar.
A viverem pelo chão
Com segredos pra escutar.

E a avó ficava-se a olhar para o chão poeirento do pinhal cheio de segredos e de caruma.

E os meninos também olhavam muito curiosos para o chão poeirento do pinhal e escutavam os segredos dos bichos pequeninos, das agulhas mortas dos pinheiros.

Mas, ai!, que a avó, de repente,
Gritou: ― Ai! O que é? Que é?
Uma verde lagartixa
Fez-me cócegas no pé!

E os netos do mundo riam, riam, com o susto (pequenino) da avó.

Mas, ai!, que a avó, de repente,
Outro gritinho soltou:
― Uma formiga, na perna,
Aqui mesmo me picou!

E os meninos do mundo riam, riam. Oh! A avó tinha tanta graça!

Agora a avó não estremecia como se o vento a abanasse, docemente, mas dava um pulinho de pulga e coçava a perna picada pela formiga.

― Ó avó, conta, conta! ― pediam os meninos a rir.
E os meninos não paravam de pedir: ― Ó avó, conta, conta!

Ai! Se a memória não falha,
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!

Mas a avó parou outra vez, de repente, parou de contar. E deu outro pulinho:

Ai!, as minhas encomendas!
Rápida como uma seta,
Em meus cabelos de lua
Meteu-se uma borboleta!

E os meninos riam, riam!
― Deixa lá, avó! Continua a contar!

E a avó continuava, coçando a cabeça de luar, de onde voou uma borboleta amarela.

E a avó continuava:

Ouviu-se uma trovoada
E a menina do pinhal
Deixou cair, assustada,
A cestinha de cristal.

A cestinha de cristal,
Cristal da neve dos montes,
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.

E as pinhas, seus brinquedos,
Da cestinha de cristal,
Eram verde, verde-pinho
Que rolava pelo pinhal…

E calou-se a trovoada
E rebentaram as fontes;
E flautas de vento verde
Varriam campos e montes.

Nos ninhos abriam ovos.
Eram asas para voar:
As agulhas dos pinheiros
Já tinham novo cantar.

E a menina do pinhal
Já tinha outro brincar:
Com uma saia de giestas
Não parava de dançar…
Xaile de chuva, fininho.
Franjas de sol a voar.
A menina do pinhal
Não parava de dançar…

Com sapatos rosas bravas
Não parava de dançar:
A menina do pinhal
Já tinha outro brincar…

E depois de contar isto tudo, a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, a avó dos meninos do mundo, ficou estafada. Suspirou três vezes: Uf! Uf! Uf! Ah! Ah! Ah! Mas estava tão contente! Que alegria no pinhal e pelos campos! Agora podia descansar.

E agora, meninos do mundo.
Vou dormir devagarinho.
Deitada em cama de nuvens,
Coberta de rosmaninho…

E os meninos do mundo fizeram sinal uns aos outros ― Schiu… ― para se calarem, com os dedos indicadores (os furabolos) diante da boca, em sinal de silêncio, para que a avó pudesse adormecer ― Schiu… Schiu… Schiu…

E embalaram a avó, num cantar amigo, quase calado:

Já sabemos o segredo.
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!

Matilde Rosa Araújo
Histórias e canções em quatro estações
Lisboa, Lisboa Editora, s/d

Os avós costumam ter coisas interessantes para contar aos netos. E tu, gostas de conversar com os teus avós? De que assuntos?