Archive for the 'psicologia' Category

O papagaio de papel

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Queres dar voz ao papagaio de papel de que nos fala o poema? Pensa na sua inquietação, nos seus sonhos, na sua ânsia de fugir…

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Balõezinhos

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Manuel Bandeira

Antologia Poética

Rio de Janeiro, José Olympio, 1989

Por que motivo, ali na feira, os balõezinhos de cor são a “única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável” para os meninos pobres?

Pelo sonho é que vamos

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Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

─ Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama
Pelo sonho é que vamos
Lisboa, Ed. Ática, 1992

Gengis Khan

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Aí está ele, passando revista às tropas

Com a sua armadura reluzente.

Os seus pés levantam ondas de poeira

E ninguém ousa fitá-lo de frente.

Na sua couraça quebram-se as lanças inimigas

E um gesto seu põe em fuga um exército inteiro

… Mas não pode dobrar-se para apanhar uma flor

Nem coçar as costas, o poderoso cavaleiro.

 

Álvaro Magalhães

O reino perdido

Porto, Ed. ASA, 2000

Quando eu nasci

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Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,

nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais…

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos da minha Mãe…

Sebastião da Gama

Serra-Mãe: poemas.

Lisboa, Ed. Ática, 1996

A propósito de mãe e poesia…

A propósito de mãe e poesia…

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Maria Alberta Menéres, a propósito do seu livro O poeta faz-se aos 10 anos, relata uma situação de aula em que a mãe era o tema sobre o qual os alunos tinham de escrever. Observa os resultados dessa aula.

Um tema difícil: a mãe

Há tanta coisa a dizer e parece que não se consegue dizer nada. A emoção sobrepõe-se ao pensamento. É sempre assim quando se propõe que escrevam sobre a mãe. Dolorosa e concentrada se pressente então a escrita. Mas reparo: sempre de uma beleza e de um insólito, por vezes insuspeitados.

Motivação:

Lembro-lhes que a mãe pode estar em tudo o que se vê, se a quiserem ver. Como a poesia: na parede branca, no mar, nas escamas do peixe a brilhar ao sol, no sol, no ar, nas pedras, até nas palavras que a caneta desenha no papel, no giz branco que escreve no quadro a palavra mãe. A mãe ou a imagem da mãe. Tal como acontece com a poesia, do olhar para as coisas de todos os dias podemos extrair um sentido que é presença ou saudade.

Escreveu o Raul:

Os olhos da minha mãe são como as escamas
Os olhos da minha mãe são como as escamas
reluzentes dos peixes do mar.
O mar é o seu corpo
e o seu coração é o Sol.
Os seus cabelos são como as penas de um galo,
a sua boca é suave como o vento
as suas mãos são finas como areia.
Os seus dentes são de marfim.
O meu amor por ela é tão grande
que nem posso dizer.

O maroto do Salgueiro, que até nem é feio, saiu-se com este pequeno poema:

Mãe, como tu és bela.
Já me disseram
Que sou parecido contigo.
Este dito me consola,
porque me acho feio.
Mas se sou parecido contigo,
como posso ser feio?
Mãe, mãe, eu sou bonito
porque tu és bela.

Envelhecer

Envelhecer

É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,

magro fio de areia,

numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens

abraçados!…

As árvores

balançam novos ramos!

E o fio de areia

a cair, a cair, a cair…

Saúl Dias

Obra Poética

Porto, Campo das Letras, 2002

É bom envelhecer, se temos alguém que nos dê apoio e carinho. Mas, quando isso não acontece, envelhecer torna-se muito doloroso. Concordas?