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História aberta

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História aberta

Era uma vez uma casa

Muito grande

Com um tecto sem fim

Nem sempre azul

Uma casa enorme

Onde habita uma grande família

Uma família tão grande

Que os seus irmãos julgam que não se conhecem

E todos se conhecem

E todos se devem amar

Nesta casa há guerra

E eu choro a um canto desta casa

Inútil choro

É terrível ouvir este próprio chorar

Matilde Rosa Araújo

Mistérios

Lisboa, Livros Horizonte, 1988

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Gengis Khan

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Aí está ele, passando revista às tropas

Com a sua armadura reluzente.

Os seus pés levantam ondas de poeira

E ninguém ousa fitá-lo de frente.

Na sua couraça quebram-se as lanças inimigas

E um gesto seu põe em fuga um exército inteiro

… Mas não pode dobrar-se para apanhar uma flor

Nem coçar as costas, o poderoso cavaleiro.

 

Álvaro Magalhães

O reino perdido

Porto, Ed. ASA, 2000

Quatro mil soldados

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Os 4.000 soldados caminham pela estrada fora, indiferentes à beleza da vida. Para onde pensas que se dirigem?

Aquário

Vivia no mar largo

e era feliz

feliz.

Sabia os sítios seguros

onde os maiores e mais duros

não podiam atacar

não o podiam caçar

não o podiam comer.

E continuava a viver.

Quando nadar o cansava

uma alga procurava

e dormia um bocadinho

e a onda que o embalava

era amiga do peixinho.

A onda amiga ondulava

enquanto o acalentava

aquecia

arrefecia

e para longe o levava.

Tão longe

tão vasto o mundo…

o seu mundo!

Tão largo, alto e profundo!…

Que alegria de nadar!

Mas um dia aconteceu

que um fenómeno se deu:

foi pescado

foi levado

para fora do seu mar

para longe do seu lar

transportado

bem fechado

numa prisão de cristal.

E

se não lhe fizeram mal

se o não comeram com sal

está muito descontente

nessa prisão transparente

à vista de toda a gente.

Alice Gomes

Bichinho Poeta: Poesia (também para crianças)

Lisboa, Gráfica Santelmo, 1973

Paz de musgo

No seu mundo de erva fresca

Dona lagarta verdinha

Mastiga couves e sol

E sente-se uma rainha.

Rainha de corpo verde

Do prado verde, rainha!

Mastiga couves e sol

Dona lagarta verdinha.

Tua paz de musgo verde

Teu manto de princesinha

Quem nos dera! Quem nos dera

Dona lagarta mansinha!

Maria Rosa Colaço

Versos diversos para meninos travessos

Odivelas, Europress, 1994

Vida

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Apreciar com amor

A flor da primavera

E o bordo do outono

É corresponder à infinita bênção

Que nos é concedida por Deus.

Deleitando-nos com a arte,

Somos purificados em corpo e alma:

Isso sim, é bênção divina.

Fazendo das flores, dos pássaros,

Do vento e da lua

Meus amigos,

Desejo viver alegremente

Mesmo neste mundo cheio de sofrimentos.

Mokiti Okada

Quando eu nasci

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Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,

nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais…

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos da minha Mãe…

Sebastião da Gama

Serra-Mãe: poemas.

Lisboa, Ed. Ática, 1996